Obs: O conceito de "linkar" ou de "ligar" textos foi criado por Ted Nelson nos anos 1960 e teve como influência o pensador francês Roland Barthes, que concebeu em seu livro S/Z o conceito de "Lexia", que seria a ligação de textos com outros textos.
O prefixo hiper - (do grego "υπερ-", sobre, além) remete à superação das limitações da linearidade, ou seja, não sequencial do antigo texto escrito, possibilitando a representação do nosso pensamento, bem como um processo de produção e colaboração entre as pessoas,ou seja, uma (re)construção coletiva. O termo hipertexto, cunhado em 1965, costumeiramente é usado onde o termo hipermidia seria mais apropriado. O filósofo sociólogo estadunidence Ted Nelson, pioneiro da tecnologia da informação e criador de ambos os termos escreveu:
Atualmente a palavra hipertexto tem sido em geral aceita para textos ramificados e responsivos, mas muito menos usada é a palavra correspondente "hipermídia", que significa ramificações complexas e gráficos, filmes e sons responsivos - assim como texto. Em lugar dela usa-se o estranho termo "multimídia interativa", quatro sílabas mais longa, e que não expressa a idéia de hipertexto estendido.
Nelson, Literary Machines 1992
Essa interpretação de hipertexto é chamada pela autora de “Conceito de Aleph” devido a uma analogia do conto “O Aleph” do escritor argentino Jorge Luis Borges, para quem a palavra Aleph significa o ponto onde é possível se ver todos os outros pontos do universo. Similarmente, hipertexto pode ser concebido como uma matriz que se expande dentro de uma multidão de textos. Pode-se dizer que o hipertexto é como uma máquina de produzir histórias assim como a gramática é uma máquina de produzir sentenças.
O escritor Michael Joyce escreveu um romance hipertextual intitulado “Afternoon”, neste romance há diferentes propostas de histórias, porém sempre com um tema em comum, um acidente de carro narrado por um narrador-testemunha. Em uma dessas versões o acidente de carro é fatal e o personagem perde sua mulher e seu filho. Na outra versão as vítimas são pessoas desconhecidas, na terceira o acidente não é grave, na quarta o próprio narrador causa o acidente. Cada sessão de leitura lida com diferentes nexos, criando diferentes conexões semânticas entre eles e, consequentemente, criando diferentes histórias sobre o acidente.
Quanto mais sedutoras são as concepções ou formações de idéias, menos elas podem ser lidas linearmente, não só porque este hipertexto propõe diferentes versões de uma mesma história, mas porque Michael Joyce decide incluir deliberadamente links contendo contradições em seu banco de dados. E isso é algo que ele não poderia fazer num texto impresso. Existem romances pré-modernos que se recusam em construir um sólido mundo real baseado em versões autoritárias dos fatos.
Se a narração é uma representação mental construída por princípios lógicos, não é possível construir uma história coerente sem todas as partes do texto fragmentado, porque os fragmentos são ordenados em relação à pressuposições, causas materiais, motivações psicológicas e sequencia temporal. Somente em hipertexto com diagrama de chaves (formato de árvore genealógica) que a continuidade narrativa pode ser mantida. Neste diagrama diferentes leitores podem seguir diferentes rumos. Mas, cada link aparece somente uma vez levando sempre a um determinado caminho onde o leitor encontrará outros links distintos dos demais que o levarão para caminhos também distintos.

O que o hipertexto oferece não é uma máquina geradora de histórias, mas um tipo de quebra-cabeças. Os leitores tentam criar uma imagem narrativa a partir de fragmentos que vem mais ou menos numa ordem randômica, acessando cada link dentro de um padrão global que lentamente toma forma na mente.
Assim como nós trabalhamos em um quebra-cabeça: começando, deixando de lado e voltando para continuar; os leitores de um hipertexto não começam uma nova história do nada toda vez que abre o programa, mas constroem uma representação mental completando ou reparando as imagens unidas até aquele pedaço.

Espen Aarseth chama o hipertexto de “jogo da narrativa” por ele se aproveitar da propriedade interna dessa mídia. As regras para os leitores num “jogo de narrativa” pode ser descrita por parâmetros de interatividade externa e exploratória. Externa porque os leitores não fazem parte da história como personagens ou elenco e porque os leitores tomam a perspectiva de “deuses”, eles consideram o texto mais como um banco de dados que pode ser acessado do que como um mundo no qual podem estar inseridos. Ele também é mais exploratório do que ontológico por que o caminho de navegação dos leitores não afeta os eventos da narrativa, mas afeta somente a maneira que o padrão narrativo emerge na mente desse espectador. A dinâmica das descobertas difere para cada jogador, mas ela não afeta a estrutura que eles reúnem. Da mesma maneira que o quebra-cabeça subordina as imagens ao processo construtivo, a interatividade externa-exploratória dá ênfase à própria narrativa a favor dos jogos de descoberta.
Muitos estudiosos têm observado que hipertextos não são boas mídias para a criação de enredos persuasivos relacionados com o suspense e com a participação emocional nos destinos dos personagens.
Tematicamente falando, a interatividade externa-exploratória de hipertextos clássicos é melhor adaptada para ficções auto-referenciais do que para mundos narrativos que prendem o leitor dentro de seus encantos. Isso explica porque muitas leituras hipertextuais oferecem uma colagem/união entre teoria literária e fragmentos narrativos. Nos anos recentes, os hipertextos têm tomado novas direções que substituíram esses conceitos por modelos de arquivo pesquisável.
Robert Coover diz que a era de ouro da literatura digital chegou ao fim quando o hipertexto deixou de ser puramente verbal, porém muitos autores discordam desta opinião.
Hipertexto pode propagar muitas surpresas durante o caminho do visitante. Links escondidos ou visíveis podem ser usados para dar uma satisfação tátil de descobrir coisas ou fazer coisas acontecerem: a expansão do mundo textual dentro de experiências sensoriais diversificadas. Os leitores desses textos agirão como investigadores buscando livremente dentro da história, uma coleção de documentos.
Os tipos de estrutura que melhor se adaptam à essas idéias de pesquisa serão coleções de pequenas histórias, como sagas de famílias, narrativas de memória cultural, histórias locais, biografias ou ainda enciclopédias como o caso da Wikipédia. Isso acontece porque histórias de vida ou de comunidades não são narrativas dramáticas com clímax, mas narrativas em episódios feitos de unidades auto-suficientes que podem ser lidas em várias ordens.
Enfim, para aqueles que ainda não entenderam o que é hipertexto vai mais uma tentativa de explicação. Temos aqui uma definição de hipertexto feita por Arlindo Machado em seu livro “pré-cinemas & pós-cinemas”:
A idéia do hipertexto é o grande divisor de águas entre o antigo e o atual conceito de livro. Todo texto, desde a invenção da escrita, sempre foi pensado e praticado como um dispositivo linear, como sucessão retilínea de caracteres, apoiada num suporte plano. As exceções são raras: acrósticos, palíndromos, anagramas, poesia visual ou concreta. A idéia básica do hipertexto é aproveitar a arquitetura não-linear das memórias de computador para viabilizar textos tridimensionais, textos dotados de uma estrutura dinâmica que os torne manipuláveis interativamente. Na sua forma mais avançada e limítrofe, o hipertexto seria algo assim como um texto escrito no eixo do paradigma, ou seja, um texto que já trás dentro de si várias outras possibilidades de leitura e diante do qual se pode escolher dentre várias alternativas de atualização. Na verdade, já não se trata de um texto, mas de uma imensa superposição de textos, que se pode ler na direção do paradigma como alternativas virtuais da mesma escritura, ou na direção do sintagma como textos que correm paralelamente ou que se tangenciam em determinados pontos, permitindo optar entre prosseguir na mesma linha ou enveredar por um caminho novo. A maneira mais usual de visualizar essa escritura múltipla na tela plana do monitor de vídeo é por meio de elos (links ou nexos) que ligam determinadas palavras chaves de um texto a outros textos disponíveis na memória. O processo de leitura é designado pela metamorfose bastante pertinente de navegação, pois se trata realmente de navegar ao longo de um imenso mar de textos que se superpõem e se tangenciam.
Tecnicamente, o hipertexto se reforma finitamente, por mais vasto que possa ser. Contudo, se pensarmos na própria web como hipertexto, aí, sim, a coisa se reformula infinitamente, uma vez que os conteúdos vão sendo adicionados, modificados, subtraídos etc.
ResponderExcluirO blog permite ver que você aproveitaram bem a leitura do texto da Ryan e outros, que dialogaram com esses textos, pensaram sobre seus conceitos e ousaram propor suas próprias visões sobre as ideias dos autores: era isso mesmo que eu estava buscando, portanto, trabalho cumprido. Para um blog futuro (esta ferramenta se torna cada vez mais útil na divulgação/construção do conhecimento), sugiro explorarem mais as ferramentas que o html permite: links ao longo do texto (vocês estão falando de hipertexto, numa mídia altamente hipertextual, mas estão explorando muito pouco tudo isso), mais vídeos embutidos no blog, um pouco mais de atenção à formatação dos textos (além de ao português, com alguns errinhos que provavelmente seriam sanados com revisão).
Exemplo de utilização de link: qd vcs falam de "Afternoon", além de colocar o nome em itálico, como se deve, a própria palavra já podia embutir um link para a página do "livro" na eastgate ou para a página da wikipedia sobre a obra.
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