terça-feira, 5 de outubro de 2010

Introdução

Desde o começo da revolução que transformou o computador de uma máquina de trabalho em uma máquina de poesias, a relação entre narrativa e mídias digitais tem sido objeto de opiniões controversas. Para começar esta discussão do potencial narrativo das mídias digitais, três questões devem ser abordadas.


Primeiro devemos definir Narrativa:

Segundo o texto, um texto narrativo é algo que trás um mundo para a mente e povoa esse mundo com personagens/agentes inteligentes. Esses personagens participam das ações e acontecimentos que causam mudanças globais nesse mundo narrativo. Narrativa é por tanto uma representação mental de estados e eventos conectados com o mundo ficcional e seus personagens.

Essa caracterização lógica-semântica de narrativa é muito abstrata para ser considerada como uma percepção/cognição universal, mas flexível o bastante para tolerar uma grande variação como: pontos de virada simples, complexos, paralelos, épicos, dramáticos, etc. Essa variação da narrativa assim como o conteúdo temático são afetados por fatores culturais, históricos e midiáticos.


A segunda questão diz respeito às distintas propriedades das mídias digitais:

Devemos lembrar primeiro que fazer uma lista dessas propriedades não significa que as mídias digitais formam um campo de ação único ou que cada uma dessas propriedades é utilizável em todas as aplicações. Vamos dar destaque para apenas 5 propriedades fundamentais:

1 – Natureza reativa e interativa: é a habilidade da mídia digital de responder
à condições variáveis. Reatividade refere-se a responder à mudanças num ambiente ou sem a ação intencional do usuário. Interatividade é a resposta à ação deliberada do usuário, resposta que o programa dá ao usuário que pratica a ação;

2 – Múltiplos sensores ou canais semióticos, ou o que chamamos de capacidades multimídias;

3 – Redes sociais: mídias digitais podem conectar máquinas e pessoas através do espaço e traz à elas um envolvimento virtual;

4 – Signos voláteis: a memória do computador é feita de bit, cujos valores podem mudar de um lado para outro/variar entre positivo e negativo. Diferente de livros ou pinturas, os textos digitais podem ser revisados e reescritos, sem precisar jogar fora a base do material. Esta propriedade explica a natureza mutável das imagens digitais.

5 – Modulação: Por o computador conseguir executar tão facilmente a reprodução de dados, trabalhos digitais podem ser compostos por vários objetos autônomos. Esses objetos podem ser usados em diferentes contextos e combinações e sofrer várias transformações.

A força expressiva das mídias digitais não pode ser descrita sem mencionar essas propriedades. Porém a interatividade é a mais distinta e fundamental de todas. Um romance pode ser digitalizado, ficar disponível na internet (propriedade 3) e ser atualizado diariamente (propriedade 4). Similarmente, o cinema oferece múltiplos canais (propriedade 2), imagens fluidas que podem ser facilmente substituídas (propriedade 4). Além disso o filme pode ser exibido na internet (propriedade 3) sem conseqüências significativas no potencial narrativo. Mas quando a interatividade é adicionada ao texto ou filme, essa habilidade de contar histórias e as histórias contadas são profundamente afetadas.


Por fim, a terceira questão a ser abordada é sobre o refinamento da interatividade. Essa experiência será baseada na tipologia da participação do usuário nas mídias digitais, que envolvem duas dicotomias: envolvimento interno x envolvimento externo e envolvimento exploratório x envolvimento ontológico.

Envolvimentos internos e externos:

Nos modos de operação internos o usuário se projeta como um membro de um mundo virtual ou ficcional, ele se identifica como um avatar ou percebe o mundo virtual com uma perspectiva em primeira pessoa. No modo de operação externo, os usuários-leitores se situam fora do mundo ficcional. Eles também jogam com as regras de um deus que controla esse mundo de cima, ou eles conceituam suas atividades como navegação em um banco de dados. Essa oposição não é estritamente binária: a posição do usuário pode ser mais ou menos interna ou externa. Ou até mesmo um mesmo texto pode fornecer diferentes ações imaginárias. Alguns usuários se situam espontaneamente dentro do mundo textual, outros preferem um ponto de vista diferenciado.

Envolvimentos exploratórios e ontológicos.

Nos modos de operação exploratórios os usuários são livres para se moverem pelo banco de dados, mas essa atividade não promove uma história nem pontos de virada (plot). O usuário não interfere no destino do mundo virtual.

Nos modos de operação ontológicos, as decisões do usuário direcionam a história daquele mundo para diferentes bifurcações. Essas decisões são ontológicas no sentido de que elas determinam os possíveis mundos e consequentemente as possíveis histórias, que irá desenvolver uma situação de acordo com as escolhes presentes nela mesma.

O cruzamento dessas dicotomias irão produzir 4 tipos de participação do usuário num texto ou narrativa: participação interna-exploratória, externa-exploratória, interna-ontológica e externa-ontológica.

Lembrando que esta tipologia não irá esgotar os campos de ação possíveis. A interatividade pode ser descrita também como seletiva (na qual selecionamos links dentro da narrativa) ou produtiva (quando participamos da narrativa através de gestos e diálogos).

E também nem todo texto entra em alguma dessas classes, às vezes as regras de uso mudam no decorrer do programa, às vezes a participação do usuário pode ocorrer por dois caminhos. Essas categorias foram feitas para que elas promovam um modelo convincente de apresentação dos vários modos de operação de narrativas interativas.

Nas próximas postagens serão abordados cinco diferentes gêneros de narrativas digitais: hipertextos; ambientes baseados em banco de dados digitas; dramas interativos; jogos de computador e imagens transmitidas através da Webcam.